Em 1989, aos 11 anos de idade, Maria Pires deixou um orfanato em São Paulo acreditando que embarcava em uma nova vida. Adotada por um norte-americano, chegou a Baltimore (Maryland) carregando a promessa de um futuro melhor. No entanto, o que deveria ser um recomeço transformou-se em um pesadelo de abusos, violência e abandono institucional.
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Brasileira que foi adotada em 1989, enfrentou abusos e agressões físicas, foi deportada pelo governo Trump
Em vez de acolhimento, Maria enfrentou anos de agressões físicas e sexuais do homem que a adotara, Floyd Sykes III. Condenado por abuso, ele cumpriu apenas dois meses de prisão. A menina, sem apoio familiar ou proteção adequada do Estado, entrou em um ciclo de vulnerabilidade e cometeu alguns crimes que a conduziram ao sistema prisional norte-americano.
Foi durante a detenção que descobriu outro choque. Apesar de o certificado de nascimento indicar seu pai adotivo como responsável legal, ele nunca apresentou os documentos necessários para garantir a cidadania da filha. Mais tarde, quando foi entregue ao sistema de acolhimento de Maryland, o próprio Estado também deixou de solicitar a regularização. Na prática, Maria cresceu em território norte-americano sem jamais obter a cidadania que lhe era devida.
Mesmo carregando histórico criminal e problemas de saúde mental, Maria conseguiu permanecer em solo americano mediante check-ins anuais com o Departamento de Imigração e Alfândega (ICE, sigla m inglês). Em 2017, após deixar a prisão, buscou reconstruir sua vida. Iniciou terapia, afastou-se das drogas, trabalhou na construção civil e manteve-se em conformidade com as exigências imigratórias.
Durante anos, o governo brasileiro se recusou a emitir documentos de viagem para viabilizar uma deportação, argumentando que, ao ser legalmente adotada por um cidadão norte-americano, Maria deveria ser considerada também cidadã dos Estados Unidos. Assim, ela permaneceu sob monitoramento, mas em liberdade.
Em março de 2023, durante um check-in de rotina, Maria foi detida e ficou meses em centros de detenção. Mas com o segundo mandato e a ofensiva imigratória do governo Donald Trump — que prometia deportar “o pior do pior” — colocou-a na lista prioritária de expulsões.
Ela foi deportada em um voo para Fortaleza, junto a dezenas de outros imigrantes.
Hoje, aos 47 anos, Maria vive em um abrigo feminino no interior do Brasil. Fala pouco português, não possui rede de apoio e enfrenta dificuldades para obter documentos básicos. Ainda assim, sonha em trabalhar como tradutora, reencontrar a família biológica e alcançar a independência.
Para autoridades norte-americanas, o caso é direto: “criminosos não são bem-vindos nos Estados Unidos”, afirmou Tricia McLaughlin, secretária assistente do Departamento de Segurança Interna. Já advogados e defensores de imigrantes consideram Maria vítima de uma dupla negligência: primeiro, de um sistema de adoção falho; depois, de políticas migratórias que ignoraram sua história e vínculos construídos desde a infância.
Uma campanha foi aberta para ajudá-la a recomeçar no Brasil. “Já sobrevivi até aqui”, disse ela em entrevista. “Posso sobreviver de novo.”
O link de doação é https://www.gofundme.com/f/help-maria-return-home-and-rebuild-her-life
(com informações: https://www.independent.co.uk)
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