O ápice dessa trajetória veio em fevereiro deste ano com o lançamento de Carnaval Sangrento 2 – Scream Fan Film.
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Coluna Renata Olszewski / New Hampshire
Do Terror à Realeza Infantil:
A Versatilidade Camaleônica de Isa Rocco no Cinema Nacional
O cinema independente brasileiro é movido por uma força que desafia as lógicas de mercado: a pura paixão artística. Em um cenário em que começar “do zero” — sem sobrenomes famosos ou grandes patrocínios corporativos — parece um convite à desmotivação, a atriz Isa Rocco escolheu a persistência. Conhecida por transitar por universos completamente opostos, ela personifica o termo “camaleão”. Enquanto de dia encanta crianças e adultos interpretando todas as princesas da Disney em shows e eventos infantis, à noite ela se joga em cenários congelantes e cenografia banhada a sangue para dar vida a criaturas de terror.
O ápice dessa trajetória veio em fevereiro deste ano com o lançamento de Carnaval Sangrento 2 – Scream Fan Film. O longa-metragem independente, dirigido por Renan Cordeiro, transformou-se em um verdadeiro fenômeno do YouTube, superando a marca de 1 milhão de visualizações em tempo recorde. Na produção, Isa interpreta Tina — a vilã complexa e visceral da trama — e entrega uma atuação que já desponta como um marco em sua carreira.
Nesta entrevista exclusiva, Isa Rocco abre o jogo sobre os bastidores do filme do ano, detalha seu processo criativo técnico, revela os dilemas de recusar papéis na TV e analisa os gargalos e as vitórias do cinema nacional.
A Arte Nascida da Prática
O que a motivou a seguir a carreira de atriz no Brasil, apesar das dificuldades do mercado?
Isa Rocco: Sinceramente, para quem começa do zero — sem familiares na cena artística, sem fama e sem incentivos comerciais —, o que mais existe são desmotivações. Mas isso me prova que o que me fez começar a faculdade na área e persistir foi sentir verdade no que eu fazia. Existe uma teimosia em continuar sendo atriz que supera qualquer lógica de interesse financeiro ou de grandes pretensões. Eu às vezes trabalho em outras áreas, o que acho saudável e enriquecedor, mas a atuação é onde finco minhas raízes.
Qual foi o maior desafio no início da sua trajetória e que conselho você daria para a Isa iniciante?
Isa: Um desafio que permanece até hoje é a estabilidade e a inserção em novos projetos. Considero uma grande sorte encontrar realizadores que confiam no meu trabalho. Se eu pudesse falar com a minha versão iniciante, diria: “Não espere pela graduação, pelos títulos profissionais e pela perfeição para começar a trabalhar!”. Eu demorei para desenvolver autoconfiança, mas as minhas melhores experiências profissionais foram adquiridas na prática, na ação do set, e não em cursos ou faculdades de teatro.
O Fenômeno “Carnaval Sangrento 2”
A Tina é uma personagem marcante em Carnaval Sangrento 2. Como esse papel impactou sua carreira?
Isa: Dar vida à Tina foi a realização de um sonho de muitos anos: gravar um longa-metragem com grande imersão. Foram 8 meses de gravações intensas, com muita identificação, entusiasmo e, claro, muito sangue cenográfico. O lançamento em fevereiro foi uma colheita muito gostosa. Alcançamos mais de 1 milhão de visualizações no YouTube e os feedbacks continuam chegando até hoje. O filme começará a circular por festivais de cinema em breve, e espero que isso abra portas para novas parcerias para toda a nossa equipe.
O Método por Trás da Atuação
Seu processo criativo envolve o estudo da linguagem corporal. Como você aplica isso na construção de subtextos para as personagens?
Isa: Eu busco compreender profundamente o contexto da personagem: seu passado, traumas, desejos e medos. Analiso como cada elemento da história reverbera no físico dela — na maneira de se mover e falar, no ritmo e no timing. Uso a linguagem corporal para construir os objetivos inconscientes da personagem. Além disso, a troca com o elenco me influencia muito. Gosto de criar laços com as pessoas com quem divido a cena, seja em ensaios formais ou em encontros informais.
Quanto mais proximidade, mais orgânico fica o desenvolvimento.
Você mencionou o contraste de interpretar princesas de dia e vilãs de terror à noite. Como funciona a transição emocional para deixar de lado papéis tão intensos?
Isa: Essa é uma linha técnica muito importante para mim: busco atingir o estado da personagem tanto física quanto mentalmente, mas nunca emocionalmente. Deixo o emocionar-se para o espectador. Meu papel é construir o tônus corporal, a respiração e a expressão vocal que comuniquem aquela dor ou aquela violência. É comum me ver correndo, pulando ou fazendo algo bizarro no set, antes do “Ação!”, para alcançar a energia necessária. Ter esse controle me exime de levar a carga da personagem para a minha vida privada. Consigo estar tremendo e ofegante em uma cena de crime e, logo depois, dançar uma coreografia delicada, vinda de um reino encantado.
Qual foi a cena mais desafiadora da sua carreira até hoje?
Isa: Atuar com muito frio é um dos meus maiores desafios, e isso acontece com frequência! O frio enrijece os músculos, atrapalha a dicção e quebra a verdade corporal de um figurino de verão em pleno inverno. Uma vez, gravei uma cena em que interpretava uma zumbi e fui atropelada por um carro. O conceito, por si só, já era totalmente disruptivo e desafiador para mim… E, para completar o pacote, estava frio. Muito frio!
Escolhas Artísticas e o Futuro
Você já recusou papéis em duas séries de TV de destaque. O que busca em um roteiro antes de aceitar um trabalho?
Isa: A identificação com a proposta artística é essencial. É um dilema difícil entre o pensamento mercadológico de “preciso pegar o projeto para ser vista” e o lado artístico de “não quero associar meu trabalho a essa estética, vou focar no que faço de coração”. Embora tenha muita vontade de fazer uma série longa, priorizo a integridade do projeto. Pelo mesmo motivo, nunca fiz publicidade comercial, mas pretendo mudar de direção nesse sentido e buscar campanhas e propagandas que façam sentido artístico para mim.
Quais são os próximos passos que o público pode esperar de você?
Isa: No momento, estou focada em projetos de curtas-metragens independentes. Como estou vivendo em cidades diferentes, isso tem me permitido explorar e colaborar com novos polos de produção. Mas, olhando para o futuro, eu adoraria me aventurar em produções internacionais e expandir meus horizontes para além do Brasil.
Radiografia do Cinema Nacional
O cinema brasileiro vive um momento de forte projeção internacional. Como você enxerga esse cenário atual?
Isa: Nos últimos dois anos, filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto trouxeram visibilidade massiva e abriram novos olhares estrangeiros sobre a nossa produção, o que tem fomentado o investimento interno. Embora eu, pessoalmente, não ligue para premiações como o Oscar, reconheço a importância comercial dessa vitrine. Contudo, na cultura de massa, ainda enfrentamos a dominância esmagadora dos blockbusters internacionais nas salas de exibição e o baixo reconhecimento do grande público em relação às nossas próprias obras.
Quais são as principais barreiras enfrentadas pelos realizadores independentes no país?
Isa: A captação de recursos é o principal gargalo. Os projetos que estão fora das grandes produtoras comerciais dependem quase exclusivamente de editais públicos, altamente concorridos. E o problema não termina quando o filme fica pronto. A distribuição e o lucro com exibições são extremamente difíceis no Brasil. Colocar produções independentes em cartaz é raro. Os circuitos de festivais de cinema não geram retorno financeiro direto para os artistas, e o acesso aos filmes acaba ficando restrito a exibições muito nichadas, sem chegar de forma democrática à população.
Para acompanhar de perto a trajetória, os bastidores das produções de horror e os novos projetos independentes da atriz, siga o perfil oficial no Instagram: @hipnotisa.
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