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Revista Brazilian Times # 83
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Flamengo campeão: Vitória da cegueira coletiva

Parabenizar o Flamengo pela conquista da Libertadores é reconhecer o que se viu em campo: um time mais intenso, mais organizado e mais decidido a vencer. A taça é fruto de mérito, de competitividade e de uma atuação que, dentro das quatro linhas, foi superior. Nada disso se discute.

Parabenizar o Flamengo pela conquista da Libertadores é reconhecer o que se viu em campo: um time mais intenso, mais organizado e mais decidido a vencer. A taça é fruto de mérito, de competitividade e de uma atuação que, dentro das quatro linhas, foi superior. Nada disso se discute.

O que não posso, e não vou, ignorar é o comportamento fora do campo. A torcida rubro-negra, tomada por um fanatismo que já ultrapassou a paixão e virou liturgia, celebra com devoção de fé cega. Vibra como se fosse um ato de redenção, mas cala quando o assunto é vida. Esquece a tragédia, esquece a responsabilidade, esquece a humanidade. Um clube não pode ser altar quando a consciência é colocada de lado.

Parece quase uma mitologia moderna: um culto vermelho-e-preto que transformou arquibancada em altar e paixão em dogma. Quando a devoção vira cegueira, o torcedor deixa de ser parte do jogo e passa a ser prisioneiro dele. A soberba cresce como fumaça depois de gol em final, encobrindo qualquer senso crítico, e o fanatismo molda um tipo de fé que não aceita contestação, nem mesmo diante de tragédias que pedem humanidade acima de qualquer camisa.

A metáfora é dura, mas útil. Um clube gigantesco como o Flamengo gera uma massa que vibra, impulsiona, cria cultura — mas também pode formar essa bolha onde nada mais importa além da vitória, da idolatria, da narrativa que conforta. A fronteira entre paixão saudável e devoção tóxica fica borrada, e quem tenta trazer racionalidade vira CLUBISTA e herege no meio da festa.

Essa mistura de futebol, identidade e poder cria um fenômeno social fascinante e assustador. Vale sempre lembrar: esporte é grande demais para ser reduzido a uma fé cega. Quando a arquibancada vira templo, o jogo perde sua alma, e a crítica vira necessidade moral.

Existe algo profundamente revelador quando uma multidão capaz de cantar por noventa minutos sem perder o fôlego não encontra a mesma voz para exigir justiça por dez jovens mortos de forma brutal. A paixão vira escudo, a camisa vira dogma, e a sensibilidade humana se dilui num mar vermelho-e-preto que só desperta quando o placar interessa.

Esse fanatismo funciona como uma religião desvirtuada: há rituais, há líderes intocáveis, há inimigos imaginários, e há uma lógica perversa onde o triunfo do clube absolve qualquer responsabilidade, inclusive moral. O que deveria ser apenas amor pelo futebol se transforma numa cegueira coletiva que relativiza o inaceitável. A morte de dez garotos — dez futuros, dez famílias destruídas — deveria ter provocado um terremoto, mas foi engolida por uma maré de euforia, títulos e narrativas convenientes.

O ponto mais assustador é justamente essa hipocrisia: a capacidade de vibrar pelo presente enquanto se apaga deliberadamente a dor do passado recente. Quando a vida humana se torna um detalhe incômodo na agenda da paixão esportiva, algo está profundamente deslocado. E esse deslocamento revela uma ferida social maior do que qualquer rivalidade de arquibancada.

Quero deixar cristalino, até para atravessar a névoa do fanatismo doentio que tomou conta de parte da torcida do Flamengo, que minha opinião não nasce de bolha digital, de militância de rede social ou de clubismo mascarado. O que escrevo vem da responsabilidade de um profissional que sustenta seus argumentos na apuração e na consciência, não no coro ensandecido das massas.

Não preciso da validação de quem confunde paixão com cegueira. Meu compromisso não é com a euforia da arquibancada, mas com a lucidez que a profissão exige. Enquanto muitos embarcam no transe rubro-negro, minha função é justamente enxergar aquilo que a multidão, por convicção ou conveniência, prefere ignorar.

A opinião é minha. A assinatura é minha. O peso é profissional. O fanatismo não me pauta, nem hoje, nem nunca.

Texto by: Roberto Vieira

Jornalista e comentarista esportivo 

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